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Empreendedorismo, uma questão de moda ou de valor? Reflexões a partir de Zygmunt Bauman

De tempos em tempos, há temas que se tornam muito frequentes, pautando todas as formas de comunicação, planos empresariais, soluções educacionais, linhas editoriais etc. É o que poderíamos chamar de modismo, porque são temas que, aparentemente, estão na moda, como acontece com determinados produtos no mercado. Foi assim na década de noventa, com o tema qualidade, que foi sucedido pelos processos de downsizing, terceirização, informação, conhecimento, chegando a toda a temática que se relaciona ao mundo online, nos dias de hoje. Nenhum desses temas, que tiveram muita repercussão em determinados momentos, desapareceu. Como peças de lego, foram se encaixando e compondo novos cenários, de tal forma integrados que passaram a ser, de certa forma, ignorados, tratados, atualmente, como obviedades: é óbvio que tudo deve ter qualidade, que uma empresa deve ser muito bem estruturada, ter parcerias, muita informação e construir conhecimentos, bem como, estar presente, de alguma forma, na Internet.

Um dos temas que está em alta, na moda, atualmente, é o empreendedorismo. Uma busca no Google retorna mais 17 milhões de ocorrências para a palavra empreendedorismo. Mas, se a pesquisa for em inglês “entrepreneurship” esse número cresce para mais de 88 milhões. Filtramos, buscando “entrepreneurship education” e obtivemos mais de 3 milhões ocorrências. Em português, o termo “cursos de empreendedorismo grátis”, pesquisado assim, entre aspas, retorna mais de mil resultados, ou seja, tem curso grátis nas mais diversas áreas e ofertados por uma diversidade de organizações e entidades.

Inicialmente, inserido nas universidades, os cursos de empreendedorismo já chegam nas escolas de ensino médio e de primeiro grau, o que nos leva a refletir sobre sua relevância do tema e sobre a diferença entre ele e os temas que tiveram relevância anteriormente.

Entendemos um tema se torna destaque como uma reação a um processo de mudança, que exige algum tipo de transformação, seja social, econômica ou política. E, à medida que a transformação se concretiza, tudo que o tema envolve passa a ser compreendido como necessário e não se aceita mais retorno.  Ela passa a fazer parte da cultura, pessoal, empresarial, social.

A diferença que observamos aqui é que, enquanto temas relevantes na área de administração estiveram estritamente relacionados à empresa, em busca de palavras de ordem, como competitividade e produtividade, o tema empreendedorismo, apesar se se relacionar com empresas, está muito mais ligado às pessoas e à forma como se comportam diante de uma economia cada vez mais globalizada, menos dependente do estado, com empresas mais enxutas, em um ambiente de expansão ilimitada de tecnologia e inovação.

A mudança nesse cenário tem como uma das consequências, a nosso ver tão importante quanto todas as outras, a necessidade de cada um cuidar da sua própria vida, em função da conquista de uma liberdade crescente, do distanciamento, cada vez maior, de qualquer estrutura de comando. Não somos mais geridos pelos reis, pela religião, pelo governo, pelos patrões, pois essas estruturas que se liquefazem, dando lugar à liberdade de escolha e ao protagonismo individual.

A pergunta então é: e agora, buscamos o quê? Para onde vamos?

Para ajudar na reflexão sobre o tema, recorremos a Zygmunt Bauman, no livro Modernidade Líquida, de onde extraímos alguns parágrafos e pontuamos – grifamos –  frases ou palavras que nos chamaram muito a atenção.

 

“A suposição tácita que apoia uma tomada de posição tão radical é que a liberdade concebível e possível de alcançar já foi atingida; nada resta a fazer senão limpar os poucos cantos restantes e preencher os poucos lugares vazios – trabalho que será completado em pouco tempo. Os homens e as mulheres são inteira e verdadeiramente livres, e assim a agenda da libertação está praticamente esgotada.”

 “A sociedade que entra no século XXI não é menos “moderna” que a que entrou no século XX; o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente. O que a faz tão moderna como era mais ou menos há um século é o que distingue a modernidade de todas as outras formas históricas do convívio humano: a compulsiva e obsessiva, continua, irrefreável e sempre incompleta modernização; a opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa (ou de criatividade destrutiva, se for o caso: de “limpar o lugar” em nome de um “novo e aperfeiçoado” projeto; de “desmantelar’ “cortar’ “defasar’ “reunir” ou “reduzir’ tudo isso em nome da maior capacidade de fazer o mesmo no futuro – em nome da produtividade ou da competitividade).”

 “O que costumava ser considerado uma tarefa para a razão humana, vista como dotação e propriedade coletiva da espécie humana, foi fragmentado (“individualizado”), atribuído às vísceras e energia individuais e deixado à administração dos indivíduos e seus recursos. Ainda que a ideia de aperfeiçoamento (ou de toda modernização adicional do status quo) pela ação legislativa da sociedade como um todo não tenha sido completamente abandonada, a ênfase (juntamente, o que é importante, com o peso da responsabilidade) se transladou decisivamente para a autoafirmação do indivíduo.”

 “A individualização chegou para ficar; toda elaboração sobre os meios de enfrentar seu impacto sobre o modo como levamos nossas vidas deve partir do reconhecimento desse fato. A individualização traz para um número sempre crescente de pessoas uma liberdade sem precedentes de experimentar [..] traz junto a tarefa também sem precedentes de enfrentar as consequências.”

Livres para criar, mas responsáveis pelo que produzimos e pelas consequências advindas, somos demandados por novos comportamentos, que nos ajudem a melhor viver, participar e recolher, desse novo ambiente – onde estamos totalmente libertos – o combustível que nos mantenha em desenvolvimento, inseridos na sociedade, evitando o retrocesso e a perda da individualidade. Voltamos então ao nosso termo em alta – o empreendedorismo -, que nesse contexto provê, se levado à sério, particularmente no estudo e no desenvolvimento de novos comportamentos, base para essa individualidade: livre, criativa, produtiva, responsável.

Essas ponderações, que não possuem rigor científico, nos permitem pensar que, sob o ponto de vista do sujeito, ao contrário do ponto de vista empresarial, mas na mesma condição de permanência e integração ao cenário futuro, o empreendedorismo – tão em moda – se revela um valor duradouro, resultante da liberdade de agir, que esperamos irreversível.

Caminhamos para um tempo em o comportamento empreendedor será tão inerente a cada um de nós, que qualquer pesquisa sobre Cursos de Empreendedorismo no Google (ou em outro buscador que vier a existir) apresentará apenas dados históricos. E isso não está muito longe de acontecer.

Veja também

Neste vídeo, uma visão atualidade por Bauman, em entrevista ao programa Milênio, da Globo News, em 2016: A fluidez do ‘mundo líquido’.

Por Márcia Matos. Jornalista, especialista em educação a distância, estudiosa do mundo digital, com muita experiência em Tecnologia da Informação, consultora e palestrante, com vários artigos publicados. Ex- funcionária do SEBRAE e atualmente, na equipe do Laboratorium, é coautora do TREM – Trilha de Referência para o Empreendedor.

Comentários facebook

1 responder
  1. conceicao moraes
    conceicao moraes says:

    Percebo que o cerne da questão de ser tão demandada a questão de empreendedorismo em academicamente se estuda: o ser, o processo e o contexto. Observa que nos processos várias técnicas vem surgindo advindo das startups em um contexto conectado globalmente. O perlo do ser, para mim, vem no clamar da mudança comportamental das pessoas sejam elas empresarias ou profissionais do mercado que precisam ser mais ativos e protagonistas para sobreviverem no contexto atual!

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