Murilo Martins se desdobra entre a direção de arte e o trabalho autoral para equilibrar suas contas – e fazer cada vez mais o que gosta

 

Na faculdade de publicidade, ele fazia histórias em quadrinhos ezines (fanzines) como diversão. Mas, com o início da vida profissional, o hobbie foi perdendo espaço – até que um dia, decidiu se dedicar mais à atividade autoral: “foi no final de  2011 que eu consegui (virando muitas madrugadas) lançar aLoveHurts. A recepção foi bacana, fiquei empolgado e decidi pegar mais pesado nos quadrinhos e nas minhas publicações” conta Murilo Martins (@mu_tron).

Pegar pesado, nesse caso, significa ocupar 70% do tempo para os quadrinhos e deixar 30% dedicado para os freelas de direção de arte e design, mesmo que o retorno financeiro seja inversamente proporcional: “eu diria que a grana para me manter vem 70% de trabalhos de direção de arte e design, e 30% de quadrinhos e outras publicações” diz o quadrinista de 42 anos e nascido em Presidente Prudente, abrindo o jogo. E complementa: “No final de novembro fiz um post sobre essa coisa de “viver de quadrinhos” e rolou uma mini-repercussão. Foi um post meio piada, porque essa pergunta ´dá para viver de quadrinhos no Brasil?´ sempre rola nos debates dos festivais. É uma pergunta bem genérica, mas de maneira geral a resposta é NÃO – muito pouca gente vive de quadrinhos. Eu estava fazendo umas contas no fim de novembro e vi que naquele mês, pela primeira vez em anos, eu tinha pago todas as contas exclusivamente com o que eu ganhei com quadrinhos. Achei divertido pontuar esse momento”.

Murilo comemorou no Facebook o primeiro mês em que conseguiu pagar as contas com a receita que obteve através dos quadrinhos, depois de três anos buscando viver como artista independente.

O modelo de receita de Murilo para os quadrinhos é a venda para lojas ou direto para os leitores, principalmente nas feiras que começou a marcar presença tanto no Brasil quanto nos EUA, Canadá e Reino Unido (onde também vende zines e pôsteres).

Dois livros (Eu Sou um Pastor Alemão e Eu Era um Pastor Alemão) estão em livrarias (físicas e virtuais) através de uma parceria feita com uma editora para que as publicações tivessem mais alcance. “As feiras são canais muito importante para os artistas. Eu tenho sorte, minhas publicações se encaixam tanto em feiras de quadrinhos (como o FIQ, o FestComix e a CCXP) quanto de publicações independentes (Feira Plana, UgraZineFest e Miolos, por exemplo). Um dos grandes problemas para os quadrinhos, principalmente os independentes ou de micro e pequenas editoras, é a distribuição”.

Para 2016, Murilo pretende “sobreviver e produzir mais”. Rodar muito para divulgar o novo livro. “Já tenho duas feiras fechadas, devo ter pelo menos mais duas até maio. Estou desenvolvendo também uma oficina de publicação independente, que deve rolar até o meio do ano”.

Participação em feiras internacionais torna-se fundamental: se o mercado local não tem tamanho suficiente, é preciso atravessar as fronteiras.

Participação em feiras internacionais torna-se fundamental: se o mercado local não tem tamanho suficiente, é preciso atravessar as fronteiras.

Sintetizo alguns trechos de nossa conversa que podem servir de dicas para empreendedores que atuam ou querem ingressar nesse nicho:

– “É muito improvável que você vá conseguir retorno financeiro suficiente para se manter nos primeiros anos. E talvez nunca consiga. Isso não é nenhum demérito: a maioria dos autores, mesmo os estabelecidos, dependem de alguma outra fonte de renda. Por outro lado, não depender tanto do retorno comercial dá uma certa liberdade criativa, dá para ousar um pouco mais”.

– “Para mim, as feiras são essenciais. Elas são onde encontramos o público, outros artistas, onde apresentamos e vendemos os livros e, em muitas delas, onde debatemos sobre o nosso pequeno mercado”.

– “Eu tive que deixar uma certa timidez e lado e começar a conversar com as pessoas nas feiras, vender livros, contar sobre o que é cada livro de um jeito rápido e que desperte o interesse ao mesmo tempo. Fora a parte bem de feirante mesmo: montar a banca, decidir o que vai levar, aprender a fazer contagem do estoque, fazer troco, fazer o balanço do dia… e até não esquecer de comer – porque no começo eu esquecia”.

– “Ainda estou aprendendo. O timing das coisas é outro, a dedicação é outra, a cobrança é outra. É preciso paciência, porque conquistar público é um trabalho que demanda tempo e esforço constante. Tudo demanda um mínimo de planejamento para que as coisas rolem – estou aprendendo a planejar meu ano cada vez com mais antecedência”.

– “Hoje você não precisa de muita coisa para começar, se não quiser fazer o impresso, tem toda a internet para você lançar sua webcomic, por exemplo. Mas continuar é o mais difícil, porque o retorno financeiro é muito baixo. Quadrinhos são uma forma de arte muito ingrata: demoram muito para se produzir, e são consumidos muito rapidamente. Um livro que você demora um ano para fazer, pode ser consumido em 15 minutos”.

– “Às vezes me vejo como ´um empresário de mim mesmo´… mas também tenho muito cuidado com certos pensamentos ´comerciais´, que conflitam com o pensamento artístico-autoral. Esse balanço é importante. Como eu gosto de estudar e a rede está toda aí dando sopa, busco informações o tempo todo. É fácil encontrar informações valiosas sobre empreendedorismo, mas para certas peculiaridades de se ´empreender´ como autor, como artista, é mais difícil. Gosto bastante do 99u e do CreativeCapital. O OpenCulture tem sempre entrevistas e documentos interessantes”.

– “Saber dimensionar a tiragem é sempre um desafio. Quando lancei a LoveHurts, fui super conservador: imprimi 800 exemplares. Eles esgotaram em alguns meses, e então na segunda impressão decidi fazer o dobro de exemplares, que também esgotaram em um ano. Teria tido muito mais lucro se tivesse impresso, por exemplo, 3000 exemplares direto. Mas é muito difícil tomar essa decisão, até hoje quando eu vejo as caixas de livros empilhadas em casa me dá uma certa aflição: “meu deus, quando eu vou conseguir vender tudo isso?”

Murilo ralando nas Feiras: com a barraca montada, o artista indo ao encontro de seu público.

 

Por Marcelo Pimenta (Menta90). Jornalista, professor e criador do blog Mentalidades.
Conheça as palestras e cursos que ele oferece e saiba como ele pode te ajudar a inovar.

Comentários facebook

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *