Pequenas empresas têm agilidade e conhecimento dos micro-contextos dos clientes. Essas competências podem ser a grande diferença dos negócios no futuro

O futuro ainda não existe. Só se sabe que ele será diferente do presente. Mas como ele será, de fato, é algo ainda indefinido – pois será construído a partir das ações que tomamos todos os dias.  Essa é uma das reflexões que Daniel Egger vai apresentar na conferência RethinkBusiness, que acontece nos dias 5 e 6 de novembro no auditório da Fecomércio, em São Paulo. 38 anos, fundador da Foltigo, diretor da Crowd Envisioning, Egger é austríaco e está no Brasil desde 2003. “Vi muito potencial no país e gostei de aprender uma nova língua”.  Atua como professor na ESPM, Mauá e Insper e é designer de estratégias inovadoras para o futuro de negócios. Autor do livro “Geração de Valor Futuro – conectando a estratégia, inovação e o futuro” (Elsevier, 2015) atualmente prepara o segundo livro “#humanizing – um design, um design humano”. Nessa entrevista ele adianta algum dos temas que vai tratar neste evento, que reúne expoentes do ecossistema de inovação para repensar o futuro dos negócios.

Máquina de construir – o ano 2000 imaginado pelo francês Villemard em 1900

Máquina de construir – o ano 2000 imaginado pelo francês Villemard em 1900

Menta – O que podemos esperar do futuro?

Daniel – O futuro depende de nós, da postura que assumimos. Essa pode ser ativa ou passiva. Ativa significa que buscamos entender as mudanças, como elas são interligadas e como nós, como individuo ou empresa, podemos ativamente participar ou até influenciá-la. Passivo, é quando sonhamos com o futuro, mas esperamos que outros o criem para nós. Explorar o futuro não é sobre prever, mas sim entender melhor as mudanças e preparar-se para as novas realidades.

Menta – Em tempos de tanta intolerância religiosa, política e até étnica, é possível ter uma visão positiva do futuro?

Daniel – Tem dois aspectos muito importantes sobre o futuro. O primeiro é que qualquer mudança representa sempre uma oportunidade. O segundo é que o futuro é neutro. Ou seja, não podemos julgá-lo com nossos vícios, mas precisamos entender as lógicas que surgem e como podemos fazer parte dessas novas realidades. Após identificados, podemos concordar ou não – e assumir influenciar da forma como entendemos como positivo ou negativo. Mas precisamos lembrar que o que nós podemos imaginar como positivo, outras pessoas não compartilham da mesma visão.

Menta – O que é a nova economia dos momentos?

Daniel – Creio fortemente num futuro centrado no humano – mas também com um desenvolvimento progressivo da tecnologia. Precisamos olhar quais são os hábitos, valores e crenças das pessoas – e o que gera valor para elas. A economia dos momentos representa essa importância. Com a mobilidade e a conectividade nós estamos utilizando produtos, serviços ou interagimos com as marcas em qualquer lugar. O Google, focando na interação com o celular, chama isso de “micro-momentos”.  Cento e cinquenta vezes, em média, interagimos com o celular por dia. Podemos acessá-lo do nosso dormitório, carro, escritório ou no banheiro. Cada acesso representa um momento, uma necessidade especifica. A economia do momento representa essa importância de conhecer não somente o cliente, mas o contexto e por que ele acessa os produtos e serviços. Sabendo disso podemos gerar novas soluções e experiências para nossos clientes.

Menta – Como as inovações tecnológicas vão impactar o futuro dos negócios?

Daniel – Vivemos cada vez mais numa sociedade tecnológica. Tecnologias como impressores de 3D, a internet das coisas ou os mundos virtuais vão transformar dramaticamente a nossa realidade. Mais especificamente, essas mudanças vão dar um novo poder aos indivíduos, ao momento. Quando a minha filha expressa sua criatividade desenhando uma borboleta, eu posso tirar uma foto e imprimir o objeto. Isso reforça o momento, cria uma felicidade e uma nova experiência criativa. Não precisamos mais ir para uma loja e procurar uma borboleta pré-criada, ela pode criar a dela. As impressoras 3D não somente vão mudar nosso hábito de consumo, mas também competências estratégicas das empresas. Com o progresso tecnológico, impressoras vão ganhar mais velocidade (hoje ainda são muito lentas) e trabalhar com mais complexidade. Isso vai impactar dramaticamente as competências de produção das empresas. Se hoje elas focam na eficiência em busca do menor estoque possível, utilizando impressoras 3D o princípio just-in-time ganha uma nova perspectiva. Caso as empresas precisem um insumo, elas podem comprar online, e imprimir. Com isso as empresas produtoras ganham uma nova agilidade e liberdade. Tem menos dependência do transporte dos bens, menos risco de perda, necessitam menos espaço de produção e menos custo do estoque. Teremos uma nova realidade mais eficiente e ao mesmo tempo uma customização maior para os clientes.

”Patins elétricos” faz parte da série Utopia, em que Villemard imaginou como seria o futuro

Menta – Qual o futuro você vê para as pequenas e médias empresas? Como elas poderão sobreviver, se destacar, em um cenário de competição crescente?

Daniel – As pequenas e médias empresas têm uma competência que as grandes muitas vezes não têm. Agilidade e conhecimento do micro-contexto dos clientes. Isso significa que teremos novas redes competitivas. As grandes empresas vão se aproveitar das pequenas e médias que vão customizar os produtos para os seus clientes. Mas também vamos ver pequenas e médias empresas se juntando em “redes competitivas” que tem uma estrutura flexível para criar uma nova concorrência. Vem daí os “funcionários de aluguel”, quando as empresas mantêm um núcleo reduzido de pessoas e passam a trabalhar cada vez mais com microempresas, startups ou autônomos para gerar valor para projetos específicos. Isso pode parecer arriscado, mas não é. Essa nova realidade dá maior acesso aos talentos, agilidade e também reduz o custo fixo das organizações nas situações de incerteza.

 

Por Marcelo Pimenta (Menta90). Jornalista, professor e criador do blog Mentalidades.
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